quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Setilha ao Nordeste



O nordeste é o terreiro
Do guerreiro Lampião
Onde Antônio Conselheiro
Rezou pela salvação
E fez, de tropas, boneca;
Foi aqui que Frei Caneca
Sonhou a revolução!

João Pessoa, 07/05/2010

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tempo pra me ser



Faz tempo e nos falta tempo
Mas é tempo de se ter
Que o tempo tem muito tempo
E dá tempo, é só querer...
Quero ser-te todo tempo!
Queres tempo pra “me ser”?

Belo Jardim, 24/01/2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Aquele nome no caderno



Do amor de minha infância
Nada mais parece eterno
Mas me lembro a ilusão
Do "gostar" tão puro e terno
Que crescia uma parcela
Sempre que o nome Dela
Escrevia em meu caderno

E ficava olhando o nome
No papel em manuscrito...
Nome não, paixão por Ela;
Que, de ler, ficava aflito
A sonhar qu’Ela pegasse
Seu caderno e me mostrasse
Também o meu nome escrito!

Belo Jardim, 23/01/2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Flamboyant bontando flor



Num cenário esturricado
Uma flor vê-se se abrir
E o flamboyant florir
Frente à seca a todo lado

Vendo tudo amarronzado
Flamboyant não se entrega
Com mil flores se carrega
Flamejando avermelhado

Flamboyant botando flor
Mais parece Deus pintor
Repitando a natureza

E se um dia eu renascer
Vou pedir a Deus pra ser
Um flamboyant, com certeza!

Belo jardim, 16/01/2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Baião com Thyelle Dias

Baião feito de improviso com a Poetisa Thyelle Dias outro dia desses de noite.



JC - Tou rindo da solidão
JC - Todavia a essa altura
JC - Bate e grita o coração
JC - Que meu riso é já loucura
TD - Sou palhaço de uma sina
TD - Que agora descortina
TD - No palco duma procura.

TD - E essa procura me acha
TD - Vez por outra a procurar
JC - Como o vento vê um rio
JC - Procurando pelo mar
TD - Enquanto não vou achando
TD - Continuo procurando
TD - Até o dia que achar.

JC - E enquanto eu não encontro
JC - De garra na solidão
JC - Mantenho o riso no rosto
JC - Abafando o coração
TD - Desabo os zói num sorriso
TD - Que chorar é prejuízo
TD - E empobrece a visão.

Belo Jardim e Livramento, 29/12/2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Impasse



Quando o sol da distância sobe o céu
E a quentura da falta arde o quengo
Dá saudade da sombra do teu dengo
Onde eu ia esfriar meu fogaréu

Por "tar” longe de ti me sinto ao léu
E a vida me faz de mamulengo
Não almejo, na busco e não arengo
Me contento em viver de déu em déu

Mas sumistes já faz tão longos dias
Que voltando não sei se ainda irias
Outra vez me olhar apaixonada

E agora não sei se é direito
Eu fechar a porteira do meu peito
Pr’as andantes que passam nessa estrada!

Timbaúba, 09/01/2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Filósofa do Cabaré



A terça-feira daquele mês de outubro de 2010 ia alta, já beirando o outro dia e, a convite de um primo que passava temporada em João Pessoa; fomos, os dois, conhecer a celebre Rua da Areia, reduto das casas de baixo meretrício Pessoenses.

Na outra ponta dessa história, aquele outubro carregava nas costas o nono mês do término do meu enlace com ela, mas Carolina ainda teimava em aparecer nos meus sonhos e aquela terça-feira, que já ia tão alta, aparentava ser só mais um outro começo de madrugada na tentativa de esquecê-la.

Chegamos à Rua da Areia e entramos no único reduto que ainda estava aberto. Era um bar de luz verde, paredes mofadas e mesas enferrujadas. Ali encontravam-se três putas e uma meia dúzia de bêbados. Sentamos numa mesa e pedimos uma cerveja. Em pouco me levantei e fui até a radiola de ficha. Dois reais, algumas dedadas na máquina e pronto: Por Amor, Roberto Carlos. Ainda nas primeiras notas da música algum dos bêbados disse um sonoro “Eita porra!” e em seguida ouvi um estampido de um fundo de copo batendo forte na mesa, mas até aí tudo normal dentro do referencial.

Ao voltar à mesa constatei que já se encontravam muito bem sentadas e servidas duas sócias-produto do estabelecimento. Sentei-me junto aos três e já senti uma mão na minha coxa, mas novamente até aí tudo absolutamente normal dentro do referencial.

Entrei de bigú numa conversa altamente sem sustança dos três, enquanto degustava cada verso de lamento da música que derramava pesares por todo o cabaré. Porém, não demorou muito e a música findou-se; sendo rapidamente substituída por um brega daqueles “chupa-que-é-de-uva”. Nessa hora meu primo, sujeito despachudo e furniquento, levantou-se com a puta menos feia e começou uma dança aparentada com a dança do acasalamento ou sei lá que peste era aquilo...

Enfim, cenário montado e conjuntura explicada, vamos agora às vias de fato. Aqui começa a parte de Fernanda Cristina nessa história.

Fernanda Cristina era o pseudônimo da puta magra das canelas finas que ficou sentada comigo à mesa. Era ela a proprietária da mesma mão que ainda continuava a passear pela minha coxa – Situação altamente normal dentro do referencial.

Ela; de cigarro no bico, maquiagem exagerada, gestos longos e rascunhando sensualidade, tentando se fazer valer mais que 20 reais. Eu, ainda ouvindo os ecos do “se não for por amor, me deixe aqui no chão”, atingido mortalmente na alma, sem perspectiva de amar outra vez e tentando parecer forte. Nós dois naquela mesa, interesses opostos e um diálogo:

- Não vim aqui atrás de sexo não, viu dotôra.

- Tão gatão com essa carinha de bebê... Avee, que tu deve ser uma máquina...

- Moça, deixe de coisa... qual seu nome de verdade?

- Fernanda Cristina, mas chame como quiser

- Pois Fernanda, me diz uma coisa: o que tu faz quando não tá trabalhando aqui? Tu tem filhos?

- Aff... tenho sim, dois e estudo direito durante o dia... Por quê?

- Curiosidade... Mas vem cá, tu já amasse alguém de verdade alguma vez na vida?

- Sim, sim... todo mundo ama um amor de verdade alguma vez na vida.

- Pois e por que tu veio parar aqui?

- Não quero falar sobre isso, não... que mulesta tu quer?

- Curiosidade, moça. Mas e essa pessoa que tu amou, esquecesse ela?

- Não, mas sabe como é né: Um amor de verdade não se esquece, ele adormece.


Varei-te! Na hora eu peguei um pedaço de guardanapo e anotei isso. Poesia da mulesta que essa tinhosa disse. Fiquei besta...

Pois pronto. Depois disso ainda foram mais uns quatro metros de conversa até que meu primo voltasse com a outra puta e Fernanda Cristina notasse que estava perdendo seu tempo comigo. Dalí voltei pra casa, mas aquele dizer: “Um amor de verdade não se esquece, ele adormece” - Ave Maria! – sei não... foi como se a puta tivesse fechado os olhos e metido o dedo sem pena na minha ferida de amor, cutucando lá dentro. Uma dose aputanhada de poesia pra um coração ébrio. Aquela pontada que pega direto na veia.

Fiquei com aquilo na cabeça e no guardanapo por quase uma semana. Lindo demais um negócio desses: “Um amor de verdade não se esquece, ele adormece”, inda mais dito por uma prostituta que hoje amargura o fundo do poço e confessa ainda amar.

Já no outro lado dessa história, dentro do meu peito, lá estava ele: o meu relutante amor por Carolina, que nem adormecer não queria. Tendo esse formato de querença tinhosa, gostar descomunal, amor sem dimensão, lembrança sem freio numa ladeira sem curva. Um querer que ainda dava nó na goela.

E foi inspirado por esse misto de filosofia putanhosa com chagas de amor ingrato não esquecido, que acabei dando vida a um dos poemas que mais me agradam até hoje. Poema esse que nasceu dessa conversa de mesa de cabaré, catalisado pelas lembranças do meu querer por Carolina e que, a pedidos, a linda voz de Bruna Alves musicou.






O que eu sei é que de noite
Quando eu vou dormir
Num lindo sonho tu vens a rir
Me dizendo baixinho,
Me arrepiando todinho...
“Ai que bom, que bom sentir”

E eu não sei se ainda posso ser querido, querida
Se um novo amor tão garrido e sem medida
No meu coração pode existir

E no meu peito – pobre peito, iludido –
Ainda repousa, depois de muito sofrido,
Aquele amor que eu cultivei pra ti

“Que um amor de verdade não se esquece, ele adormece”

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mote Bom da Mulesta VII

Escrevendo por riba desse mote, que ouvi numa cantoria da mulesta dos cachorros:

Mote:
Se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!





É beleza que deixa o sol sem jeito
Esse riso sorrindo luz em tudo
Essa pele macia qual veludo
Esses olhos olhando - olhar espreito -
E o sinal ostentando o seu direito
De beijar esse queixo tão querido
Beija um lado e me deixa aborrecido
Mas um dia eu que beijo o outro lado
E se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!

Tua pele é demais pr'os meus visores
Mais parece uma obra do divino
E o teu cheiro? Eu não sei, mas imagino
Que de longe ele faz inveja às flores
Tua voz alivia meus clamores
Nunca vi algo assim, nem parecido
Tou com medo de ter adormecido
E você ser um sonho bem sonhado
E se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!

Belo Jardim, 02/01/2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Versejando com Thyelle Dias

Fazendo versos com a gigante Poetisa Thyelle Dias, tirei do quengo essas duas oitavas:



Sem querer eu quis você
De repente eu me vi seu
E fiquei feito um ateu
Procurando algum por quê
Mas nem tudo a gente vê
E nem o juízo entende
Tudo em ti me surpreende
E me faz mais te querer...

Pois querer você já é
Um inteiro do meu dia
Que reluz de alegria
E me completa de fé
Enchendo tanto a maré
Dos mares do meu amor
Que o siri da minha dor
Com medo corre de ré!

Belo Jardim, 02/01/2011.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Tu que me esqueceu



Já não me pego matutando o que seria
Já não me ouço a perguntar se volta a ser
Já não me importa se eu fiz por merecer
Já nem me lembro se você quem merecia
Já não me vale quem dos dois que mais valia
Já desisti de concluir quem mais perdeu
Já me livrei de quase tudo que era teu
Já não encontro em quase nada as semelhanças
Já me esqueci de quase todas as lembranças
Só não ainda de que tu que me esqueceu...

Belo Jardim, 23/12/2011.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mote bom da mulesta VI

Numa roda de versos altamente internetizada, com a Poetisa Mariana Teles e Thyelle Dias, versando em cima do mote retirado do livro do Poeta Zé de Cazuza; debulhei do juízo essas duas estrofes.

Mote:
"Acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!"




Mesmo quando de noite o medo vem
Pelo espaço tamanho do abandono
E carrega os pedaços do meu sono
Pra tentar me fazer o seu refém
Eu sorrio no escuro e vou além
Dou-lhe um susto no medo e logo então
Digo a ele, com mais convicção:
Se garanta comigo qu’eu sou quente
E acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!

Me cansei de viver em prol do amor
De ficar procurando uma paixão
De viver chaleirando o coração
E depois me lascando com a dor
A partir de agora e pro que for
Não m’esforço e nem forço outra ilusão
Vou ficar no meu canto e com razão
Pra que um falso amor não me atente
E acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!

Belo Jardim, 21/12/2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Hei de ser um SER HUMANO



Ando muito diferente
Do que quis ser no passado
Eu queria ser HUMANO
Um SER diferenciado
Mas hoje sou só mais um:
Um bicho homem comum
Andando pra o lado errado!

Eu lembro quando moleque
Não entender a razão
Do menino igual a mim
Na praça, dormindo ao chão
Sujo, sem modo, sem nome
E reclamando de fome
Com aquele barrigão.

Eu lembro quando entendi
O absurdo daquilo
Do menino igual a mim
Mas com físico de um grilo
Um bucho só de lombriga
Sem amparo ou mão amiga
De quem passava tranquilo.

Eu lembro quando eu ouvi
Qu’eu seria um dia alguém
E o menino igual a mim
Nunca seria ninguém
Qu’a sorte que Deus me deu
Pro menino ele esqueceu
Ou não quis lhe dar também.

Eu lembro que quis crescer
Pra então mudar o mundo
Onde o povo diz que Deus
Faz algo tão infecundo;
Mas cresci, ficando assim,
E o menino igual a mim
Rotulei por vagabundo.

Fiquei muito diferente
Do que quis ser no passado
Eu queria ser HUMANO
Um SER diferenciado
E perdi-me da proposta
Hoje sou outro ser bosta
Mas eu mudo esse traçado!

Inda é tempo, isso é verdade,
Antes de chegar ao fim
Tenho muito qu'aprender
Pra fechar meu boletim
Hei de ser um SER HUMANO
Contra o destino tirano
Do menino igual a mim!

Belo Jardim, 20/12/2011.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Comentário do Poeta Brás Ivan



Comentando a foto acima, retratada numa confraternização feita por mim e outro estagiário para o colaboradores da fábrica onde atualmente atuo, o malassombrado Poeta/Padre Brás Ivan disse:

A mesa de bar revela,
Coisa ruim e coisa boa
Mas a mesa dessa foto
É da amizade a loa
Jessé! Não terás castigos
Quem tem tanto assim de amigos
Só pode ser gente boa!


Aí, tentando dar ao Poeta a dimensão do quanto esses cabras são grandes de alma e humanidade - indiferente diplomas, cargos e a mulesta a quatro - eu disse:

Pessoas de grande apanha
Seres extraordinários
Indiferente seus cargos
Seus diplomas ou salários
De corpo, alma e tutanos
São grandes seres humanos
Que dispensam comentários!


Belo Jardim 17/12/2011.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Carroça da vida



Eu comparo nossa vida
Como fosse uma carroça
Cada um é seu carreiro
Indo pr’onde achar que possa
E a depender do rumo
Às vezes se perde o prumo
Em caminhos mal tomados,
De pedras, curvas, ladeiras;
De sei lá quantas porteiras
Repletas de cadeados!

E quando a gente acelera
Na pressa do “quero agora”
A carroça segue oca
Pelos caminhos afora
Com sua carroceria
Completamente vazia
De qualquer aprendizado
Segue assim desembestada
Mas chega ao fim da estrada
Sem ter de nada agregado.

Quando vamos devagar,
A carroça rende mais
Tendo tempo de agregar
As coisas que a estrada trás
Segue a carroça da vida
Sendo então abastecida
Com sacos de pensamentos
Humildade, humanidade
Tristeza, felicidade,
E outros tantos sentimentos!

E se a carroça da vida
Se trupica num buraco
Do estoque de alegria
Vez por outra cai um saco
E com alegria a menos
Nos sentimos tão pequenos
Que a viagem desanima
Mas, com fé, um peregrino
Que atende por destino
Joga 10 sacos pra cima!

Belo Jardim, 14/11/2011

Faz parte - Versos femininos



Queria ser, lá que fosse
Do teu gosto alguma arte
Do teu frevo uma sombrinha
Do teu bloco um estandarte
Mas se tu não quer qu’eu seja
Faz parte não ser, faz parte...

Bem melhor ser o enfarte
No peito de quem me quer
Quando solta e semi-nua
Dispa de pudor qualquer
Entregar-me a este tolo
Sem sentir nada sequer...

Faz parte, meu bem, faz parte
Viver é isso ou não é?

Belo Jardim, 15/12/2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Respostinha encabulosa

Ao ser perguntado sobre minha saudade, eu disse:



Saudade é palavra pouca
como é pouco tudo o mais
se fosse pra ser saudade
a falta que tu me faz
não sobraria saudade
dentre todos os mortais!

Belo Jardim, 14/12/2011.

A menina dos meus olhos



A menina dos meus olhos
tem os olhos clareados
que do verde pro castanho
deixam meus olhos vidrados
e meus olhos nos seus olhos
não enxergam más olhados!

Belo Jardim, 14/11/2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

É capaz de pensar que me amaste



Eu mudei, tu mudaste, nós mudamos
O que fomos não somos, hoje, mais
Quando o ano passou ficou pra trás
Um pedaço de nós que não usamos
E agora que nos reencontramos
Eu te olhando percebo que mudaste
Mas se queres saber, só melhoraste
Com o tempo ganhaste mais encanto
E teus olhos me olhando brilham tanto
Qu’é capaz d’eu pensar que me amaste!

Belo Jardim, 06/12/2011.

Saudade sem vergonha



Bem queria, nessas horas
Que me sinto mais sozinho
Desfrutar do arrepio
Que me vem do teu carinho;
Bem queria, nesse instante
Ser nós dois num só quadrante
Braços, beijos, tudo o mais...
Que aí - Ave Maria! -
Até Deus se assombraria
Na altura dos teus ais!

Belo Jardim, 06/12/2011.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ser dois sem ser completo



Por medo de ficar só
O ser humano s‘entrega
Com o tempo se apega
Confundindo amor com dó
E fica naquele nó
Pensando que amor é isso...
Mas amor tem um feitiço
Muito maior que o medo
Vou esperar, inda é cedo
Amar é meu compromisso!

Bem prefiro ser sozinho
À ser dois sem ser completo
Não quero caminho reto
Quero ir reto no caminho
Ser passarinho sem ninho
Sem companheira até quando
O amor chegue voando
Cantando e batendo as asas
Espantando as paixões rasas
E de vez me completando!

É triste quem se ilude
Por medo da solidão
E que pensa ter razão
Nessa sua atitude
Porém, que Deus os ajude
A não sentir o tormento
Afastando o pensamento
De s’arrepender um dia
Do amor de hipocrisia
Que finge qu'é sentimento!

Belo Jardim, 28/11/2011.

domingo, 27 de novembro de 2011

Ao trio, com Esmero III

Dedicada aos meus grandes amigos, Filipe e Roberto Apolinário.




Amigos, des’que nascemos?
Amigos, porque dizemos?
Amigos, no que vivemos?
Amigos, porque será?
Por nossa cumplicidade?
As resenhas d’outra idade?
Onde está nossa amizade?
Pois eu sei onde é que está!

Tá bem aqui no meu peito
Num cuviquinho mal feito
Que eu fiz por não ter jeito
De estamos sempre perto
E quando a saudade aperta
O meu peito se alerta
Uma lembrança desperta
E assim eu me conserto...

Lembrar de antigamente
Daquele tempo em que a gente
Via tudo diferente
Sem responsabilidade
Mesmo sem ser o bastante
Como hoje estou distante
É a solução restante
De viver nossa amizade!

Belo Jardim, 27/11/2011.

sábado, 26 de novembro de 2011

Entre anjos da guarda



Rosa é todinha de sorte,
Disse seu anjo da guarda,
Não há bala de espingarda
Nem instrumento de corte
Doença ou coisa de morte
Que perturbe sua vida
E, sendo assim, minha lida
É tão chata que entedia
Já tem pra mais de "mil dia"
Qu’eu nem saio da guarida

Pois comigo é diferente,
Disse o anjo doutro lado,
Que Quelé, o meu guardado,
Tá demais inconseqüente
Pois gamou perdidamente
Por Rosa, sua guardada,
E buscando pela amada
Vive num fino da morte
Em instrumento de corte
E em tiro de espingarda!

Por isso meu camarada
Que a muito eu não descanso
Minha lida é puro ranço
Não tenho tempo pra nada
Vivo metido em roubada
Salvando meu protegido
Feliz é você, querido,
Que não tem o que guardar
E nem vive a se estrepar
Por um mal agradecido!

João Pessoa, 04/09/2010.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quando ela se foi



Que quando alguém se vai das nossas vidas
Leva consigo um pedaço da gente
E deixa um algo seu na nossa mente;
Eu já sabia, d’outras despedidas...

Mas dessa vez não foi somente isso
Um algo aconteceu de diferente
Que quando ela partiu me vi descrente.
Não sei por que, mas me senti sem viço...

Foi como se ali depois do fim
Ela tivesse levado de mim
Bem mais que um pedaço do que sou

Partindo, sim, com a minha alma inteira
Deixando um corpo oco a derradeira
Da história do amor que se acabou!

Belo Jardim, 21/11/2011.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Malandro enroscado

Sabe aqueles caboclos que acham que nunca vão se amarrar? O tipo cabra que se acha o malandrão, o impenetrável, o modafoquer, o supra-sumo do cu do pato; jura que manda e desmanda nas aleatoriedades do mundo, jura controlar a mulesta a quatro e na verdade não manda em bobônica nenhuma?!

Pois imaginem esse cidadão quando dá de cara com uma paixão... quer dizer, uma não, duas...



Minha nossa senhora, eu tou lascado!
Bem verdade que o tempo faz das suas
E eu que tava enrolando todas duas
Pelas duas me encontro abestalhado!
Como pode um malandro apaixonado
Sem saber qual fazer de namorada?
Uma é linda e demais desenrolada
Mas a outra é meiguice sem limite
E o meu peito está feito dinamite
Vendo a hora explodir por quase nada!


Belo Jardim, 18/11/2011.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Nosso amor da besta-fera



Se não fosse o ser, não era
Se não fosse o tá, não tava
Se não fosse bom, minguava
Nosso amor da besta-fera;
Mas de tão bom se supera
E de tão grande ele alcança
A distância que avança
Nesse chão que nos separa
E de tanto ser, não para
De ter sempre uma esperança.

Esperança na melhora
Num futuro mais sereno
Onde um tempo mais ameno
Tenha mais tempo que agora
Mas enquanto não aflora
A melhora em nossa agrura
Nosso amor inda segura
Tudo quanto é empecilho
Como quem anda no trilho
Do trem que leva a loucura!

Belo Jardim, 15/11/2011.

domingo, 13 de novembro de 2011

Retalhos sobre saudade

Sextilhas minhas, tiradas de uma peleja feita com a poetisa Mariana Teles:



Na vida de um Poeta
O amor não tem paragem
Que o poeta é um navio
Em uma eterna viagem
Pulando de porto em porto
Amando por cabotagem

E a saudade é uma ferida
Que dá a gota e não sara
Nem mesmo com a pomada
De melhor marca e mais cara
E pereba de saudade
Nenhum band-aid mascara!

Em cada hora pulsada
Mais saudade se rebela
Dói no peito, rasga a alma
Molha o olho e mancha a tela
Pois cada hora que passa
E outra hora sem ela!

Mas nem com tanto lamento
Saudade não é ruim
Também não chega a ser boa
Porém ela espanta o fim
E pro fim nunca chegar
Eu levo a saudade em mim!

João Pessoa, 18/06/2011.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O orfanato



22 passados tristes
22 amarguras
22 futuros duros
Pra 22 ternuras
São 22 crianças
22 esperanças
22 almas puras!

22 anjos sofridos
A viver num purgatório
22 elegias
Num sorriso aleatório
São 22 pequeninos
São mais 22 destinos
Neste mundo predatório

22 quase esquecidos
Por bilhões de indiferentes
22 solidões
Num mundo cheio de ausentes
Quando neste orfanato
A presença, mais que um ato
Vale 22 presentes!

Belo Jardim, 03/10/2011.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dinheiro e status não se comem

Poesia nascida e apresentada na Semana Interna de Prevenção ao Acidente de Trabalho e Meio Ambiente (SIPATMA) da Acumuladores Moura S/A, onde este Poeta Abusador anda engenheirando e inventando versos:





Já pensaram se a gente não tivesse
Uma sombra de árvore na rua
E o concreto encobrisse o sol, a lua
E o restante qu’é verde, vivo e cresce?
Já pensaram se o mundo muito aquece
E os bichos tudinho vão e somem
O que peste seria então do homem
Que mulesta qu’a gente ia comer
Como é que a gente ia viver
Se dinheiro e status não se comem?

Do que nós precisamos pra viver?
Precisamos de carros, de dinheiro
Ou ar puro, nascentes e um terreiro
Onde é verde o que a vista percorrer?
E o futuro, como é qu’ele vai ser?
Se ninguém não puxar o “frei-de-mão”
Da selvagem e vil devastação
E da poluição que a gente gera
É cruel, mas, ficando assim, já era
Nossos netos, coitados, pagarão...

É por isso que tão fundamental
Quanto é tomar banho e se limpar
É também o planeta preservar
Afinal ele é nosso quintal.
Inda cabe remendo nessa tal
De camada de ozônio já furada
Cada um pegue a pá e a enxada
E cultive de forma consciente
Nosso meio e tão frágil ambiente
Que sem ele ninguém aqui é nada!

Belo Jardim, 31/08/2011.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O caminho é mesmo assim



Quem pedir informação
Aqui no Belo Jardim
Vai ter a explicação
Sempre do mesmo jeitim:
Na casa verde má feita
Pode drobar as direita
Depois pode ir c’a mulesta
Adepois tu droba “assim”
Faz “assim”, depois “assim”
Que a rua é mesmo esta!

Belo Jardim, 02/11/2011.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Andança das coisas - Belo Jardim



A tarde já vem em queda
O dia perdendo os tampos
E em plena Siqueira Campos
O sol desce e se hospeda
Então a lua se arreda
Segue pelo calçadão
Na praça da conceição
Faz um pouco de pantim
E assim em Belo Jardim
A noite dá seu plantão!

Já perto da meia-noite
A cidade é solidão
Que nem mesmo assombração
Não vê quem causar açoite
E as altas horas da noite
Um vento frio varre o pelo
de um cão tendo um pesadelo
Lembrando o dia em que o dono
Lhe jogou no abandono
A dizer não mais querê-lo!

Quando então o sol levanta
Toma um café da manhã
E forte feito um titã
O mundo inteiro abrilhanta
E a lua se desencanta
Se apaga e se aquieta
Fica ali no céu, discreta,
Só descansando um tiquim
E aqui a vida é assim
Ao olhar desse Poeta!

Belo Jardim, 28/10/2011.